Histórias da Ditadura

Artigos

21
abr
2017

9 fatos históricos / 1 mentira sobre a Ditadura Militar


 

1. Após o início da ditadura, diversas personalidades que haviam apoiado o golpe contra João Goulart, passaram a manifestar oposição em face da radicalização e dos crimes cometidos pelos militares no poder. O jurista brasileiro, Heráclito Fontoura Sobral Pinto, por exemplo, defensor dos direitos humanos e da prevalência do estado de direito, que havia publicado artigo defendendo a intervenção das Forças Armadas em 1964, passou a criticar a ditadura.

 

2. Outro exemplo marcante refere-se ao cardeal dom Paulo Evaristo Arns. O cardeal foi eleito bispo da Sé de São Paulo em 1966 e nomeado arcebispo metropolitano de São Paulo pelo Papa Paulo VI em 1970. Apesar de se tornar uma figura central na oposição à ditadura militar e denunciar crimes contra os direitos humanos, em abril de 1964, entretanto, apoiou o movimento contra João Goulart, chegando a oferecer benção aos tanques militares que se deslocavam para o Rio de Janeiro.

 

3. Na cerimônia de início das obras da ponte Rio-Niterói, no dia 9 de novembro de 1968, a Rainha Elizabeth II estava presente. A participação de firmas britânicas no consórcio responsável pelas obras levou o então ministro da Fazenda, Delfim Netto a viajar para Londres para celebrar os contratos. Os custos da obra, o atraso na entrega e os valores extras, necessários para a finalização do projeto, permanecem pouco esclarecidos. Quando a Ponte Rio-Niterói foi inaugurada, no dia 5 de março de 1974, ela era a terceira ponte mais longa do mundo. Oficialmente, durante as obras, a ditadura reconheceu a morte de 33 funcionários. Levantamentos posteriores indicam que ao menos 72 pessoas morreram durante a construção. O primeiro veículo a cruzar o pedágio foi um fusca, dirigido pelo coronel Rodrigo Ajace.

 

4. No dia 11 de abril de 1964, o Congresso Nacional, que havia declarado vago o cargo de presidente da República, quando João Goulart ainda se encontrava em território nacional, elegeu indiretamente um novo presidente da República: O general Humberto de Alencar Castelo Branco. Após garantir que manteria a Constituição e realizaria eleições diretas em 1965, o general recebeu o apoio e o voto do ex-presidente da República, o então senador Juscelino Kubitschek.

 

5. Alguns meses depois, Castelo Branco resolveu cassar o mandato de Juscelino. Antes de a notícia vir a público, o então deputado Antônio Carlos Magalhães telefonou para o ex-presidente para lhe avisar acerca da decisão de Castelo Branco. JK reagiu chamando o general de “filho-da-puta”. O deputado o repreendeu pelo insulto. No dia seguinte, ao se encontrar com Castelo Branco, Antônio Carlos Magalhães ouviu o seguinte agradecimento: “Muito obrigado, sei que o senhor me defendeu numa situação difícil”. A ditadura já havia grampeado o telefone de JK.

 

6. Quando ainda era major, Costa e Silva era um assíduo frequentador das rodas de pôquer. Certa vez, na cidade de São João del Rei, perdeu tudo o que tinha em uma rodada. Desesperado, resolveu apostar a geladeira de casa. Perdeu novamente para o também major, Carlos Luiz Guedes. Nos dias seguintes, como vingança, mandou instalar um inquérito contra o colega por causa do sumiço de um peixe no frigorífico do quartel. O episódio ficou conhecido como o “Inquérito do Peixe”.

 

7. Para driblar os censores do Serviço de Censura de Diversões Públicas, Chico Buarque criou o heterônimo, Julinho da Adelaide. Dentre as “canções de Julinho” encontram-se “Milagre brasileiro” e “Jorge Maravilha”. A estratégia funcionou. As músicas foram aprovadas e Chico Buarque gravou a canção “Jorge Maravilha” no dia 10 de dezembro de 1973, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Algum tempo depois, o Jornal do Brasil revelou que Julinho da Adelaide era, na verdade, Chico Buarque. A letra de “Jorge Maravilha” passou a ser interpretada como um recado para o general Geisel: Amália Lucy, filha do general, havia declarado ser grande fã do compositor. Na canção, Chico Buarque recita: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”.

 

8. Na noite do dia 30 de abril de 1981, quando se realizava um show comemorativo pelo Dia do Trabalhador, o sargento Guilherme Pereira do Rosário e o capitão Wilson Dias Machado estavam prestes a realizar um ataque a bomba no pavilhão Rio Centro, no Rio de Janeiro. Por volta das 21 horas, quando o show, que reunia uma multidão, já havia se iniciado, uma das bombas que os militares transportavam explodiu dentro do veículo, matando na hora o sargento e ferindo gravemente o capitão Machado. O episódio ficaria conhecido como o “Atentado do Riocentro”. A ditadura, em plena decadência, impediu as investigações e acobertou o atentado terrorista. O general Golbery, então chefe da Casa Civil, se demitiria do cargo, por ser contrário à proteção oferecida pelo general Figueiredo aos autores do crime: “Vocês pensam que vão controlar o país cometendo crimes e encobrindo seus autores, mas estão muito enganados. Vão ser postos daqui para fora, com um pé na bunda”.

 

9. No dia 25 de abril de 1984, com a rejeição da emenda Dante de Oliveira, que buscava reinstaurar as eleições diretas para a escolha do próximo presidente da República, o país se encaminharia para mais uma votação indireta pelo colégio eleitoral. As principais candidaturas estavam representadas pelo oposicionista Tancredo Neves (PMDB) e pelo governista Paulo Maluf (PDS). Já em 1985, o astrólogo e jornalista Getúlio Bittencourt anunciou que havia previsto um obstáculo para Tancredo: a conjunção de Mercúrio com Netuno, às 15 horas do dia 15 de janeiro, provocaria sua derrota. Alertado por um companheiro de partido, Tancredo, como bom mineiro, achou melhor se prevenir: “Vamos antecipar o horário das eleições para as 10 da manhã”.

 

10. Com o término da ditadura, novas lideranças militares surgiriam no cenário nacional. O general Ernesto Geisel, analisando o cenário político brasileiro, apontaria como expressão dessa nova geração de homens capazes, o deputado Jair Bolsonaro. Para Geisel, Bolsonaro era uma grande aposta para o futuro: “um homem capaz e um bom militar”, diria o general.

 

Pedro Teixeirense é historiador e editor do site História da Ditadura.