Histórias da Ditadura

Artigos

20
jan
2017

“Criando doutrinas subversivas”: um padre capixaba vigiado pela ditadura militar.

“Consta que em Muniz Freire, foram criadas, pelo Vigário daquela Cidade, inspirado pelo Bispo de Vitória, por D. Helder Câmara e outras autoridades do Clero, doutrinas subversivas”. A afirmação está no pequeno informe 007/77, de 18 de julho de 1977, produzido pela Delegacia de Ordem Política e Social do Espírito Santo (DOPS/ES) que, entre outras funções, identificava e reprimia possíveis focos de oposição ao regime ditatorial, que fora instaurado no Brasil após o golpe civil-militar de 1964.[i]

Um potencial foco de resistência à ditadura, para os agentes da Delegacia, estava no pacato município de Muniz Freire, localizado no sul do Espírito Santo, distante 169 Km da capital Vitória e com 18.799 habitantes em 1970, segundo dados do IBGE.[ii] Ainda que o informe de julho de 1977, preservado no Arquivo Público Estadual, não cite textualmente o nome do “padre subversivo”, é possível determinar sua identidade por meio de outras fontes. Trata-se do padre Aníbal Ademar Vieira da Cunha, titular da paróquia local de 1964 até 1995, data de seu falecimento.

Nascido em Muniz Freire no dia 8 de abril de 1911, Aníbal Vieira também residiu nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, onde concluiu seus estudos. No ano de 1935, pouco antes de completar 24 anos, seria ordenado sacerdote, na cidade do Rio de Janeiro. Nesse mesmo estado, padre Aníbal iniciaria sua carreira, trabalhando em diversos postos. Entre os anos de 1935 e 1944, desenvolveu trabalhos como o de professor de seminário, coadjutor da Paróquia de Inhaúma, pároco de Deodoro e da Vila Militar e de capelão-substituto na Irmandade da Lampadosa. De volta ao Espírito Santo, atuou por quase dez anos como pároco em Linhares. Entre 1954 e 1958 exerceu a função de diretor espiritual no Seminário Santa Helena, em Vitória, cargo que voltaria a ocupar entre os anos de 1959 a 1963. Em 1958, antes do retorno ao seminário, trabalhou por breve período como pároco em Cachoeiro de Itapemirim e coadjutor da Catedral de Vitória.

Visita do governador Élcio Álvares.

A algumas semanas do golpe de 1964, padre Aníbal tomaria posse na Paróquia Divino Espírito Santo, em Muniz Freire. Pelos próximos 31 anos, segundo o opúsculo “Jubileu de Ouro de Vida Sacerdotal do Padre Aníbal Ademar Vieira da Cunha”, o seu ministério seria marcado pelo cumprimento rigoroso da função e pelo desapego aos bens materiais. Mesmo não sendo um crítico contumaz da ditadura militar e avesso a pregações que misturavam fé e política, padre Aníbal se tornaria, na década de 1970, um dos milhares de brasileiros vigiados pelo sistema de informações da ditadura militar. O mote da investigação seria o conteúdo de uma de suas mensagens, com caráter supostamente subversivo, que despertaria a atenção dos órgãos de segurança, e, por isso, registrados pela DOPS/ES.

Segundo o informe, “o tema abordado por ocasião da Santa Missa são críticas aos poderes constituídos, membros do Congresso Nacional, Câmara dos Deputados e ao Senado”. Em seguida, também acusam o vigário de Muniz Freire de estar “insuflando os católicos contra a instituição da Lei do Divórcio, que seria sancionada no dia 26 de dezembro de 1977.

O último trecho diz que padre Aníbal estava citando casos de “perseguição à religiosos, feitas por autoridades brasileiras”, mas sem especificar quais teriam sido mencionados. Um acontecimento conhecido do período merece referência: trata-se do frade dominicano Tito de Alencar Lima, preso com outros colegas dominicanos em 1969, acusados de ligação com o líder da Ação Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella. Frei Tito foi barbaramente torturado e banido do país em 1971. A tortura deixou sequelas irreparáveis em sua mente e em 10 de agosto de 1974 o religioso enforcou-se num convento na França.[iii]

Cortejo Fúnebre do padre Aníbal.

O informe da DOPS/ES ainda cita o então bispo de Vitória, dom João Batista da Mota e Albuquerque, além de dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, nomes importantes na defesa dos direitos humanos nos “anos de chumbo”. Os dois bispos acusados de influenciarem o padre muniz-freirense foram signatários do “Pacto das Catacumbas”, assinado em Roma, em 16 de novembro de 1965, durante o Concílio Vaticano II. O pacto defendia uma vida de simplicidade e, segundo Frei Betto, plantou “a semente do que, mais tarde, viria a ser conhecida como a Igreja dos pobres. A Igreja das Comunidades Eclesiais de Base e das pastorais populares.”[iv]

Diferente de religiosos reconhecidamente engajados na luta contra a ditadura militar, padre Aníbal não tinha o mesmo comportamento e atuava numa cidade do interior, de difícil acesso e pouco conhecida até mesmo dentro do Espírito Santo. Diante disso, a princípio, causa surpresa um líder religioso de hábitos simples e distante do mundo da política ser vigiado pela ditadura. Contudo, analisando o contexto do período, compreende-se que o sistema de vigilância estruturado pela ditadura militar tinha o poder de alcançar as mais inesperadas partes do país, ou seja, nenhum cidadão estava totalmente livre de ser atingido pelas arbitrariedades do regime. Dessa forma, assim como outros membros “famosos” do clero, o padre de Muniz Freire também foi monitorado pelos atentos olhos da repressão, embora não tivesse sido submetido a constrangimentos públicos e nem a outras práticas comuns do período como detenções ilegais e torturas. Constata-se, portanto, que a ideia de que só foi vigiado ou punido pelo regime quem “fez algo de errado” parece não se sustentar.

Duas décadas após a sua morte, padre Aníbal segue prestigiado entre os católicos de Muniz Freire. Como prova de sua importância, a paróquia da cidade está construindo um memorial que será batizado com o seu nome. Ao lado das certezas do memorial que guardará a acervo da paróquia, permanece uma dúvida: como a ditadura militar chegou até padre Aníbal?[v]

Herbert Soares é historiador.

Para saber mais: 

Pedro Ernesto Fagundes. Foi sempre assim: Modus Operandi da Polícia Política do Estado do Espírito Santo (1930 a 1985). In: Pedro Ernesto Fagundes (Org.). Arquivos da repressão política no estado do Espírito Santo (1930-1985). Vitória: PPGHIS-UFES; GM Editora, 2011.

Carlos Fico. Como eles agiam. Os subterrâneos da ditadura militar: espionagem e polícia política. Rio de Janeiro: Record, 2001.

Paulo César Gomes. Os bispos católicos e a ditadura militar brasileira: a visão da espionagem. Rio de Janeiro: Record, 2014.

Kenneth Serbin. Diálogos na sombra. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Erilaine Ribeiro da Silva. Considerações sobre a atuação dos bispos católicos do estado do Espírito Santo sob a visão dos agentes da DOPS/ES (1970-1985). In: Pedro Ernesto Fagundes e outros (Org.). O estado do Espírito Santo e a ditadura (1964 – 1985). Vitória: GM Editora, 2014.

[i] Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES). Fundo DOPS. Série 08 – Movimentos Religiosos; Caixa 26, Dossiê nº 5, p. 94. Informe 007/77, 18 jul. 1977.

[ii] População residente 1970 – total. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Disponível em: IPEA. Acesso em: 11 dez. 2016.

[iii] Para saber mais, ver: Frei Betto. Batismo de Sangue – Os dominicanos e a morte de Carlos Marighella. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

[iv] BETTO, Frei. Pacto das Catacumbas. O Globo. Disponível em: Jornal O Globo. Acesso em: 15 dez. 2016.

[v] O acervo do DOPS/ES está sob guarda do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES), que, por sua vez, participa do Projeto “Memórias Reveladas – Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil”, uma iniciativa da Casa Civil da Presidência da República, coordenada pelo Arquivo Nacional.