Histórias da Ditadura

Artigos

07
ago
2017

O submundo de Madame Satã e a imprensa alternativa nos anos de chumbo


 

Sérgio–Mas você é homossexual?
Satã –
Sempre fui, sou e serei. ” 
[1]


Cerca de um ano e meio após a decretação do Ato Institucional n. 5, no governo Médici, Madame Satã, personagem da boemia carioca, foi entrevistado por um grupo de jornalistas do tabloide O Pasquim. O ar cômico usualmente encontrado nas páginas do semanário deu lugar, naquela edição, à triste e emblemática história do homossexual mais famoso que a Lapa, tradicional bairro carioca, já teve por referência.

O Pasquim, existente entre 1969 e 1991, foi um jornal alternativo que, com ampla tendência à comédia, tecia duras críticas à ditadura vigente na época. Em sua primeira edição, seus fundadores não esperavam que a publicação se estendesse para além do Rio de Janeiro, local de sua produção. Segundo Bernardo Kucinski, a primeira edição de O Pasquim foi feita com a tiragem de 20 mil exemplares. Cerca de um ano mais tarde, a demanda aumentou de tal maneira que, em janeiro de 1970, o jornal alcançou a tiragem de 225 mil exemplares, número surpreendente[2] que possibilitou sua ampla circulação no Brasil. Quando a entrevista de Madame Satã foi publicada, O Pasquim já era, portanto, um tabloide bastante conhecido, tendo sido, possivelmente, o responsável pela ampliação da fama do personagem carioca pelo restante do Brasil.

O Pasquim, no entanto, apesar de sua ferrenha oposição ao regime ditatorial, do tratamento liberal no que diz respeito às drogas e, em alguns casos, às liberdades sexuais, tinha inclinações machistas. A luta feminista era usualmente abordada em tom de chacota em suas páginas. As piadas de cunho homofóbico também eram comuns. Segundo o historiador James Green, homossexuais efeminados sofriam severa difamação por parte dos jornalistas de O Pasquim, que constantemente faziam uso de manchetes humorísticas caracterizando esses indivíduos de modo pejorativo. A manchete da edição n. 105, por exemplo, estampava a frase “Todo paulista é bicha”.

Assim, sou levado a questionar os motivos pelos quais a entrevista de Madame Satã foi publicada no semanário. É sabido que Madame Satã era detentor de uma personalidade difusa, que punha em xeque os estereótipos relacionados à homossexualidade no decorrer do século XX.[3] O homem passivo ou “bicha” é popularmente visto de maneira negativa por cumprir durante as relações sexuais o papel de “ser penetrado”, atribuído à mulher. No entanto, Madame Satã, um dos personagens mais conhecidos da malandragem carioca, envolvia-se em muitas brigas com a polícia e com outros homens, muitos dos quais o provocavam julgando que não perderiam a briga para um homossexual publicamente conhecido. Seu comportamento de malandro – figura associada à masculinidade – juntamente com suas preferências sexuais faziam de Madame Satã um personagem que subvertia os estereótipos sociais no que diz respeito à homossexualidade.

A valentia de Madame Satã e sua homossexualidade declarada provocavam medo nos arredores da Lapa, como nos mostra determinado trecho da entrevista:

 

Sérgio – Satã, me diga uma coisa: essa história de que você pegava garoto à força é verdadeira?

É coisa que eu nunca fiz na minha vida, porque era coisa que não precisava fazer. O senhor deve entender, o senhor que é da vida moderna, sabe muito bem que isso é uma coisa que não se precisa pegar ninguém à força.

Sérgio – Eu sempre ouvi falar, desde garotinho, quando eu ia passear na Lapa e falavam comigo: cuidado que o Madame Satã vai te pegar.

Conversa fiada, eu não era tão tarado assim.

 

O jornalista Sérgio Cabral mostra, em seu discurso, que as pessoas utilizavam a figura de Madame Satã para que os mais jovens fossem cuidadosos em seus passeios pela região da Lapa. Até os dias de hoje, pessoas LGBT são vistas por uma ótica extremamente sexualizada, resumindo a existência desses indivíduos às suas respectivas sexualidades. Acredito ter sido, portanto, essa a origem dessa lenda urbana atribuída a Madame Satã.

Há ainda um outro trecho que julgo ser merecedor de destaque:

 

Chico – Satã, você respondeu a quantos processos?

Eu tenho 29 processos, sendo 19 absolvições e 10 condenações.

Chico – E quantos homicídios?

Três.

 Chico – E agressões?

Ah, meu filho, somente nove.

Millôr – Em quantas brigas você calcula que tenha entrado?

Ah, que eu não fui preso, deve ter umas três mil. Eu gostava da briga. Eu nunca briguei com paisano na minha vida. Essa mania da polícia chegar, bater e começar a fazer covardia, eu levantava e pedia a eles pra não fazer isso. Afinal de contas, se o sujeito estiver errado, eles prendam, botem na cadeia, processem, tá certo. Agora, bater no meio da rua fica ridículo. Afinal nós somos seres humanos. Eles achavam que eu estava conspirando contra eles, então já viu, né.

Millôr – Quer dizer que você tinha raiva da opressão policial.

Sempre tive e morro com ela.

 

O trecho destacado acima, além de evidenciar o gosto que Madame Satã tinha pela briga, evidencia também um outro fator: os problemas que Satã tinha com a polícia, bem como a raiva que ele tinha da violência policial. No livro Além do Carnaval, James Green afirma que a polícia do Rio de Janeiro, na primeira metade do século passado – e até mesmo depois –, tinha o hábito de prender homossexuais efeminados nas ruas, sob acusação de vadiagem, e forçar-lhes a executar serviços como limpeza ou arrumação das delegacias durante algum tempo. Madame Satã também resistiu a essa violenta prática policial.

De todo modo, em quase toda a entrevista, as perguntas e respostas estão direcionadas ao passado de Madame Satã, algumas décadas anterior ao período da ditadura militar. Os entrevistadores mostraram grande interesse pela relação de Madame Satã com suas brigas e confusões com a polícia. É sabido que, após o golpe de 1964 e com a instauração da ditadura militar, houve uma crescente utilização do aparato repressivo contra os chamados “subversivos morais”, isto é, homossexuais, transexuais, prostitutas, alcoólatras, entre outros. Acredito ter sido, portanto, essa a intenção dos jornalistas de O Pasquim na publicação da entrevista com Madame Satã, durante o período mais crítico da repressão na ditadura militar. A ideia de trazer à tona um “subversivo moral”, que enfrentava a polícia e resistia às suas práticas truculentas, soava como crítica sutil ao regime de exceção instituído pelos militares.

 

João Condé é graduando em História pela PUC-Rio.

 


 Bibliografia:

James Green. O Pasquim e Madame Satã, a “rainha” negra da boemia brasileira. 2003.

James Green. Sexo e vida noturna, 1920 – 1945. In. Além do carnaval. São Paulo: UNESP, 1999.

Bernardo Kucinski. Nasce O Pasquim. In. Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa. São Paulo: Página Aberta Ltda, 1991.

 


Notas:

[1] Citação utilizada originalmente por James N. Green no artigo “O Pasquim e Madame Satã, a rainha negra da boemia brasileira”, retirada da edição de O pasquim publicada em 05/05/1971.

[2] Segundo Bernado Kucinski, o repentino sucesso de O Pasquim pode ter por referência um tabloide estadunidense do mesmo gênero, o Village Voice, que, existente havia 12 anos, vendia apenas cerca de 75 mil exemplares.

[3] GREEN, 1999.