Histórias da Ditadura

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Rock
13
fev
2018

O rock brasileiro da década de 1980 e os processos de transição democrática e de redemocratização


 

O rock brasileiro da década de 1980 constituiu um frutífero cenário musical para o país; inúmeras bandas surgiram nesse período, algumas com vários álbuns lançados ao longo dos anos, outras tantas com apenas um hit radiofônico e, com muita sorte, um ou dois videoclipes veiculados em programas de televisão. Muito do que foi dito ou escrito sobre esse período tinha mais a ver com a memória daqueles anos do que propriamente com a análise histórica da produção cultural das bandas de rock brasileiras e sua relação com o período de transição e posterior redemocratização do Brasil.

A relação entre política, cultura e economia marcou todo o período de transição democrática. O alcance do rock entre grande parcela da juventude brasileira, algo que culminou na criação da expressão BROCK, por Arthur Dapieve,[1] para classificar o fenômeno mercadológico que se verificou na década de 1980, coloca duas questões: qual o papel que o artista, no campo musical, passa a ter com o iminente fim do regime civil-militar; e de que maneira a música, em especial o rock, torna-se símbolo de grande parcela da juventude brasileira durante todo o período de transição democrática, expressando os anseios e aspirações de uma geração que havia crescido sob a ditadura. Mesmo em um período de desmobilização política, a juventude encontrou maneiras de expressar suas ideias através de uma forma cultural que, historicamente, sempre foi sinônimo de rebeldia. No cenário nacional da década de 1980, a afirmação das bandas nacionais de rock possui uma clara ligação com o momento de crise política e econômica que levou ao fim da ditadura e ao período da redemocratização.

 

rock

Capa do livro do crítico musical Arthur Dapieve

 

Em minha tese utilizei como objeto de análise letras das canções de algumas bandas do período pois, embora uma canção represente a junção entre letra e melodia/arranjo musical, busquei verificar de que forma os artistas transmitiam suas mensagens ao público, e as letras eram o canal mais direto, já que eram elas que indicavam de forma mais clara aquilo que a juventude queria ouvir e o que ela queria falar. Nesse sentido, enquanto manifestações culturais socialmente construídas, as letras das bandas do BROCK – não todas, é óbvio – refletiam os sentimentos presentes naquele determinado momento histórico, adquirindo, assim, forte apelo político. Inseridas em determinado sistema econômico e político, essas bandas representavam as aspirações daquela juventude enquanto atores sociais, e suas letras eram a forma pela qual aquele público conseguia se expressar, mesmo que indiretamente.

Embora muitas bandas tenham surgido e alcançado certa exposição comercial, minha pesquisa deu ênfase a grupos dos três principais eixos musicais do período: Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Brasília representava o centro simbólico do poder no país, e inúmeras bandas surgiram aí como forma de manifestação em relação ao desenrolar dos acontecimentos do período de transição. Rio de Janeiro foi o centro de onde irradiou o rock que tomou as rádios brasileiras, e onde foi realizado o festival de música Rock in Rio, em janeiro de 1985, fundamental para a consolidação do estilo no país. Já São Paulo, cidade símbolo da urbanização desenfreada e da fragmentação social características da pós-modernidade, foi o centro das bandas que melhor utilizaram os princípios contestatórios do rock em suas canções, demonstrando assim uma rebeldia mais direta do que os grupos dos outros dois centros.

A periodização escolhida para esse trabalho insere-se na ideia formulada por Daniel Aarão Reis Filho de “transição democrática”, o período que vai da Lei da Anistia em 1979 à Constituição de 1988. No entanto, minha pesquisa foi um pouco além da proposta do autor, visto que qualquer noção de periodização é, por si só, uma construção. Embora a promulgação da nova Constituição brasileira tenha tentado eliminar muitos dos resquícios da legislação da época do regime militar, tal processo de transição somente foi sacramentado, pelo menos no campo político, com as eleições diretas de 1989, ano em que a sociedade pôde, enfim, exercer seus direitos políticos de maneira plena.

 

Consituição 1988

Promulgação da Constituição 1988 (Fonte: Agência Brasil)

 

Não se tratou, porém, de um processo isento de contradições, dadas as características do próprio momento histórico da produção musical dessas bandas. Ao tratar das ideias de utopia e distopia nas canções dos grupos roqueiros na década de 1980, procurei analisar de que forma as letras, de forma dialética, refletiam e desconstruíam, por meio de um processo constante de tensão e distorção da realidade, tanto a relação dos músicos com seu momento histórico, como a relação criada entre eles e sua inserção nas engrenagens do sistema cultural então vigente. A urgência demonstrada nos primeiros anos da década de 1980, fruto natural da experiência que alguns artistas tinham tido com o movimento punk da década anterior, refletia as ansiedades em torno dos momentos finais da ditadura, e as ideias de liberdade, felicidade e também de utopia em relação ao que o futuro traria ao país norteavam a produção desse período. Não se tratava de um projeto político para a sociedade, visto que tais discussões encontravam-se na arena política institucional, especialmente após o fim do bipartidarismo imposto pela ditadura anos antes.

A derrota das “Diretas Já” em 1984 deixou claro que a transição política em curso seria organizada pelos atores políticos permitidos pelo regime que, mesmo em vias de extinção, controlava o processo como um todo. Aos novos artistas cabia, então, a missão de serem cronistas de seu próprio tempo, retratando em suas formas culturais aquilo que se expressava como um desejo geral, mesmo que incompleto. A utopia surgia, então, mais como uma esperança ao que viria do que como uma resposta em relação ao que já existia. Tal sentimento configurava um posicionamento que refletia um sentimento geral, perceptível na própria sociedade brasileira; alijada do processo institucional de transição, mas demonstrando nas ruas seu desejo pelo retorno à democracia, sobrava a ela o desejo e a esperança, sentimentos que não podiam ser expressos abertamente pouco tempo antes.

O retorno aos espaços públicos, a liberdade de expressão – mesmo, em alguns casos, ainda vigiada – e o uso da cultura como forma de tomada de posicionamento traziam à tona uma sociedade que se mostrava abertamente contrária ao regime vigente e esperançosa em relação ao que a democracia traria ao país. A utopia parecia ser, então, o fio condutor da sociedade e, em especial, daquela geração de jovens, que já não tinha medo em relação ao amanhã, pois para eles este mesmo amanhã apresentava-se como a certeza de tempos melhores. Entretanto, esta ideia continha em si sua própria negação: a certeza da concretização do sonho utópico no futuro mostrava sua impossibilidade, pois este esperar retirava dos próprios atores sociais qualquer forma de luta em relação à mudança que se queria. De certa forma, a utopia passou a se apresentar como uma imagem distorcida da realidade, retirando dela a ideia da contradição presente em seu período histórico, fator necessário para sua própria mudança.

 

 

A própria realidade tratou de desmistificar o sonho utópico; não apenas a realidade política que, através dos acontecimentos cotidianos ressaltava a ideia de que a ditadura ainda permanecia no seio da sociedade por meios de leis e outros instrumentos de coerção, mas a realidade que se descortinava diante dos artistas. A imposição de um modelo comercial de sucesso aos novos grupos como forma de alcançar o reconhecimento de público mostrava-lhes que a liberdade desejada não se restringia apenas à vida política, mas também ao próprio estatuto de sua arte; a utopia em torno do papel do artista nos novos tempos desaparecia com a mesma velocidade que desaparecia o sonho do retorno total da democracia no país. A realidade distópica tornava-se visível tanto nas atitudes de determinados setores da sociedade que passaram a utilizar o espaço público como local de expressão de seu descontentamento com o processo de redemocratização como na produção artística das bandas de rock. Em certa medida, houve um resgate, por parte desses artistas, do sentimento de que não havia futuro, mote explorado pelos punks anos antes. A crítica dos punks contra tais condições eram agora resgatadas em um cenário político distinto, no qual, no entanto, persistiam as desigualdades econômicas e sociais marcantes da sociedade brasileira. A distopia presente no discurso e nas ações das bandas do BROCK refletia a desilusão desse grupo de jovens que celebrara o fim da ditadura mas que não tinha o que comemorar em termos reais. A mudança almejada por tanto tempo mostrara-se uma promessa sem fim, uma ilusão que o próprio cotidiano tratava de desconstruir.

O sentimento distópico em relação à própria imagem do artista é algo que interferia diretamente na obra das bandas. Talvez pelo seu momento histórico, de esperança e transformações políticas, tenha sido gerada uma expectativa em relação ao papel que teriam na sociedade que se queria construir após o duro período de exceção. Não se pode negar que essa geração representou um sentimento de liberdade e união que havia desaparecido da cena brasileira nos anos anteriores; porém, o fato de serem expoentes de um sistema cultural baseado na ideia da produção de bens descartáveis os marcou como “despolitizados” justamente por não serem capazes de utilizar os meios impostos como instrumentos de modificação de sua realidade. A crônica social construída por meio de suas canções marcava uma tomada de atitude frente ao que viviam, mas ela esgotava-se em si mesma; a crítica distópica da realidade marcava aquilo que incomodava, mas pouco propunha para superá-la. Não se tratava de uma característica apenas dessas bandas; frente ao sistema hegemônico de produção e consumo instalado no país, raros eram os artistas que conseguiam construir uma obra ao mesmo tempo crítica e imune ao seu ambiente de produção. O que foi feito pelos grupos de rock na década de 1980 era um reflexo do que a própria arte brasileira havia se tornado: elemento de sustentação da indústria cultural.

Nesse cenário cabia ao artista, enquanto possível agente social da mudança, construir sua obra de tal maneira que fosse acolhida pela indústria cultural e utilizasse seus próprios termos como instrumentos de crítica. A distopia presente nos primeiros anos da redemocratização deixava claro que tal posicionamento, por mais necessário que fosse, mostrava-se tão distante quanto o próprio sonho utópico perseguido com o fim da ditadura. O presente real transformava a esperança desejada em algo inalcançável; o futuro que todos imaginavam que logo viria transformava-se no futuro que em algum dia ainda virá.

 

Daniel Cantinelli Sevillano é historiador (dcsevillano@gmail.com).

 


Para saber mais: 

Daniel Cantinelli Sevillano. Pro dia nascer feliz? Utopia, distopia e juventude no rock brasileiro da década de 1980. Tese de Doutorado defendida na Universidade de São Paulo.

 


Nota:

[1] Arthur Dapieve. BRock. O rock brasileiro dos anos 80. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

 


Como citar este artigo:

SEVILLANO, Daniel Cantinelli. O rock brasileiro da década de 1980 e os processos de transição democrática e de redemocratização. In: História da Ditadura – novas perspectivas. Disponível em: http://historiadaditadura.com.br/destaque/rock-brasileiro/. Publicado em: 14 Fev. 2018. Acesso: [informar data].

 


Crédito da imagem destacada:

Alexandre St-Louis on Unsplash