Histórias da Ditadura

Hoje na Imprensa

26
jun
2017

Notícia | Livro discute os impactos da ditadura militar em Sobral, interior do Ceará


Agência História da Ditadura

 

 

Sabe-se que, sob o comando do general Olímpio Mourão Filho, tropas se deslocaram de Minas Gerais para o então estado da Guanabara na madrugada de 1º de abril de 1964 para dar início ao movimento que depôs o presidente João Goulart. Os acontecimentos decorrentes dessa ação deram início a uma ditadura, que duraria mais de duas décadas, impactando a vida nacional de muitas maneiras, para além da repressão aos opositores do regime.

Pesquisas voltadas para a região Sudeste do país, mais precisamente para os estados do Rio de Janeiro e São Paulo, locais de inegável efervescência política, constituem a maior parte da historiografia dedicada ao tema. Grupos guerrilheiros, movimento estudantil, aparelhos repressivos, apoios e oposições em setores como imprensa, Igreja Católica e empresariado, além de manifestações importantes como as lutas por anistia e eleições diretas, são questões notadamente conhecidas nesses estados.

No entanto, o golpe de 1964 e a ditadura que, logo após, se iniciou impactaram de maneiras mais ou menos profundas outros espaços da vida nacional. Buscando compreender questões decorrentes do golpe e da ditadura em Sobral, cidade do Ceará localizada a 235 km da capital, dois historiadores cearenses organizaram o livro A ditadura civil-militar em Sobral: aliança, “subversão” e repressão (Edições UVA; SertãoCult).

A obra reúne artigos de um grupo de historiadores que pesquisam o período ditatorial na cidade em aspectos centrais para a compreensão de seus impactos. Alianças políticas do poder municipal com os militares, movimento estudantil, Igreja Católica, imprensa e ações subversivas são pontos abordados no livro e que ajudam a constituir uma visão mais ampla deste período em Sobral. Esses temas, aliás, são tangenciados por questões que ajudam, ainda, a compreender o próprio Ceará em contexto ditatorial.

Sobral, já naquele período, se destacava entre as cidades cearenses, sendo palco de diversos investimentos, como a construção de uma universidade, rodovias, estádio, aeroporto e outros, que refletiam o “espírito desenvolvimentista” característico sobretudo dos anos do chamado “milagre econômico”.

As reconfigurações político-partidárias decorrentes do sistema bipartidário implementado pelo AI-2 acabaram por evidenciar a força política da Arena na cidade. Nesse contexto, os grupos políticos locais se reorganizaram e fundaram três sublegendas da Arena. O MDB, embora existisse, tinha pouco prestígio eleitoral. O Poder Executivo municipal, durante os anos da ditadura, foi comandando pelo partido governista, tendo como prefeitos Jerônimo Medeiros Prado, Joaquim Barreto Lima, José Parente Prado, José Euclides Ferreira Gomes Júnior e, novamente, Joaquim Barreto.

As relações de apoio e consentimento de setores da cidade também são analisadas no livro. Não apenas o Poder Executivo municipal, mas também a diocese de Sobral e seu jornal, o Correio da Semana – que circulava pela região Norte do Ceará –, nutriam simpatias pela ditadura, embora alguns de seus representantes mais progressistas tenham sido perseguidos pelos militares, como atestam os arquivos da repressão analisados.

Manifestações de oposição também existiram em Sobral. Panfletos, pichações pelos muros da cidade, passeatas, festivais culturais e reuniões secretas revelam um conjunto de práticas de sujeitos que se opunham à ditadura. Há ainda o curioso caso dos estudantes secundaristas de um colégio católico que tentaram homenagear o guerrilheiro Che Guevara na cerimônia de colação de grau. A cerimônia acabou não ocorrendo: o DOPS reagiu e cerca de trezentos militares cercaram o colégio. Segundo depoimentos, o episódio foi noticiado pelo Jornal do Brasil e pela BBC de Londres.

Trabalhos como este são importantes não apenas para construir o que muitos consideram como uma “história local”. Mas, por tratar de um tema que ainda comporta zonas pouco conhecidas, como é o caso da ditadura, ajudam a evidenciar o alcance dos apoios ao regime e da repressão, já satisfatoriamente conhecidos nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo.


 

Serviço:

 

A ditadura civil-militar em Sobral: aliança, “subversão” e repressão

Organizadores: Edvanir Silveira e João Teófilo

Editoras: Edições UVA e SertãoCult

Páginas: 204

Lançamento: junho de 2017

Informações sobre vendas: sertaocult@gmail.com; didisilveira@bol.com.br

Média de preço: R$ 25,00