Histórias da Ditadura

Hoje na Imprensa

10
jun
2017

Notícia | Lugares da ditadura em Porto Alegre


Por Paulo César Gomes | História da Ditadura

 

 

Em 2016, a estudante Anita Natividade Carneiro, aluna do curso de História da UFRGS, desenvolveu como trabalho final da disciplina Introdução à prática e ensino de História um mapa virtual interativo com os lugares relacionados ao período da ditadura militar brasileira em Porto Alegre. Usando um recurso disponível no Google, Anita criou o projeto Caminhos da Ditadura em Porto Alegre, que busca destacar  os locais onde houve repressão e resistência naquele contexto. Cada ponto do mapa é acompanhado por sua descrição, o que permite que a ferramenta tenha diversos usos, não apenas em sala de aula. Anita destaca que, apesar de, inicialmente, ter imaginado o mapa para ser utilizado como instrumento de aprendizagem, ela foi percebendo que o mecanismo pode servir até mesmo como guia para elaboração de um roteiro de turismo histórico.

Nos últimos anos, vêm ganhando força projetos da chamada História Regional que, em linhas gerais, busca trazer os temas a serem estudados para uma realidade mais próxima do aluno, o que pode contribuir para que ele se sinta mais estimulado pela disciplina. Ao mesmo tempo, vemos crescer iniciativas que buscam, com auxílio das novas tecnologias, divulgar o conhecimento produzido nas universidades para um público mais amplo.

História da Ditadura bateu um breve bate-papo com Anita, que está bastante antenada com as tendências mais recentes da historiografia.

 

 

1. Como surgiu a ideia de criar um mapa interativo como trabalho de final de disciplina ao invés da prática mais habitual, que são os trabalhos escritos? Como foi a aceitação pela universidade? 

Para esse trabalho final da disciplina, que é uma cadeira que temos antes de iniciar os estágios curriculares, na verdade deveríamos desenvolver uma sequência didática de aulas para uma turma hipotética, sendo assim, a professora já nos desafiou a criar algo fora do padrão dos artigos que normalmente pedem para que a gente escreva, que estão muito mais próximos da linha de bacharel do que da licenciatura na graduação. Primeiro a ideia foi de fazer uma aplicativo com esses pontos, mas fiquei sabendo por um colega de estágio que o Google tinha essa possibilidade de desenvolver mapas em que nós selecionamos os pontos, a partir daí fui explorando a ferramenta e inserindo os locais.

 

2. Quais foram as fontes que você utilizou? Conte um pouco de como foi a realização da pesquisa para a construção do mapa. 

Com os 50 anos do golpe civil-militar de 1964, no ano de 2014, apareceram muitas notícias sobre locais em Porto Alegre que teriam alguma conexão com esse período e muitos trabalhos sobre a temática foram publicados.  Foi também quando entrei em contato com um mapa físico, que já selecionava e dividia os pontos ligados a ditadura civil-militar. Essa primeira fonte foi a inspiração para iniciar o mapa digital. Sendo assim, as fontes foram as mais diversas possíveis. No primeiro momento, quase foi tudo encontrado via internet. Agora a fase está mais voltada para textos acadêmicos e também das sugestões de pessoas, que fazem o mapa ser construído colaborativamente.

 

3. Tendo em vista o uso cada vez maior de novas tecnologias no ensino de História, você acha que trabalhos como o seu poderiam passar a substituir as monografias (TCC) de final de curso por exemplo? 

Não sei se substituir totalmente o TCC, mas com certeza as tecnologias digitais precisam ser mais inseridas na pesquisa e no ensino de História, o mundo em que vivemos é digital, não temos como negar isso, o/a profissional da área de História precisa aprender a manejar ferramentas, seja para sua prática docente, seja para a pesquisa. No momento, estou realizando um levantamento de trabalhos sobre as tecnologia digitais em eventos de ensino de História, e, pelo o que analisei até o momento, essa temática ainda tem aparecido timidamente nas pesquisas dos professores (as) e pesquisadores (as).

 

4. Quais as principais finalidades do mapa? 

A beleza do projeto “Caminhos da Ditadura em Porto Alegre” está nas suas finalidades, que  são infinitas. Depende do leitor se apropriar daquele conteúdo e também da ideia do mapa digital, para desenvolver algo do seu interesse. A minha finalidade ao construir o mapa foi de construir uma ferramenta de aprendizagem colaborativa para a sala de aula, mas posso extrapolar resolvendo criar uma roteiro de passeio por pontos selecionados, por exemplo. O mapa também surgiu como resposta a essa lacuna do ensino/pesquisa da ditadura civil-militar que apenas foca nas cidades Rio de Janeiro e São Paulo, como podemos notar que é o foco de muitos livros didáticos nessa parte do conteúdo. Assim como, uma tentativa de descentralizar a aprendizagem que, em muitos momentos, evidencia os ditadores do período sem apresentar a tensão entre resistência-repressão que é tão importante para compreender esse período.

 

Acesse o mapa: Caminhos da Ditadura em Porto Alegre