Histórias da Ditadura

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Terra em Transe
12
set
2016

Resenha de filme: Terra em Transe (Glauber Rocha).


 

A primeira vez que assisti a Terra em Transe foi no segundo período da faculdade de História, numa disciplina eletiva chamada “História das esquerdas no Brasil”. O filme foi exibido em uma TV antiga de 40 polegadas com som muito baixo. Apesar disso, me marcou muito aquela interpretação alegórica do golpe de 64. Lembro que um aluno reclamou com a professora sobre a morosidade da narrativa e disse que aquilo não era cinema. A resposta dela foi inesquecível: “Há coisas que não se diz em público. Falar que Glauber Rocha não é cinema é uma delas”.

Voltei ao tão incensado filme recentemente para tentar entender porque em momentos de dúvida em relação a democracia, ele sempre vem à tona. Não foi simples. Glauber Rocha escreve ali uma tese, a de que a esquerda sozinha não governa. É difícil admitir.

A história fala de Paulo (Jardel Filho), intelectual e poeta, que oscila entre apoiar o ditador moralista Porfirio Diaz (Paulo Autran numa atuação de sair faísca) ou estar ao lado de Felipe Vieira (José Lewgoy), bonachão que deseja governar para o povo, mas vence as eleições através de alianças problemáticas com grandes proprietários de terra. No meio desse conflito, é marcante a figura de Sarah (Glauce Rocha), secretária de Vieira e incansável militante de esquerda, protagonista do mais sensível diálogo do filme, em que diz que queria casar e ter filhos como todas as outras mulheres, mas levou o primeiro cartaz para as ruas e foi presa e torturada e, mesmo assim, nunca deixou de levantar os seus “para sempre cartazes”. Sarah não perde a fé, apesar de levar nos olhos as derrotas que viveu.

Paulo precisa escolher um lado, mas não acredita em nenhum. Suas falas são vãs. Ele duvida da sabedoria do povo, mas quer defendê-lo. Trata os pobres com desdém, mas se recente de não haver governo para as classes trabalhadoras. A esquerda é elitizada, Glauber Rocha adverte. Para onde estamos indo desde a última década de 60? Nossas bandeiras, panfletos e torturas nos tiraram do isolamento? Saímos ilesos das negociações com os poderosos? Quando estamos no poder, como agimos? O excesso de retórica e a nossa pouca prática há muito nos angustiam. Terra em transe nos devolve as origens.

 

Terra em Transe

Cena de Terra em Transe

 

O filme fala sobre um tempo que insiste em retornar. Nosso dia da marmota, no Brasil, parece ser constituído de ameaças ao estado democrático de direito. Assistimos e nos identificamos porque é uma metáfora potente sobre os sentidos que movem a política no nosso país. A estratégia de legitimar golpes de estado alegando a necessidade de retomada de valores como a honestidade associada à família, a deus e ao trabalho é conhecida pelos que estudam política. Se em 1964, a justificativa para a tomada do poder foi o afastamento das forças comunistas, hoje o discurso foi construído em torno da extinção da corrupção. Entretanto, os autores dessas comoções oficiais são os mesmos, setores conservadores das igrejas e do empresariado.

O conflito que Terra em transe aponta passa por Maquiavel, governar envolve a compreensão das circunstâncias. Em muitos momentos da história, quando os grupos privilegiados a quem a esquerda se alia são desmoralizados, o governo que propõe reformas populares se enfraquece. Enquanto Paulo faz indagações sobre seguir o caminho da luta livre de alianças espúrias ou contemporizar com as elites escorregadias, muitos de nós se perguntam: Katia Abreu valeu a pena?

Paulo tem um pouco do Marcello Rubini, personagem de A doce vida de Fellini. É um revolucionário que flana. Ele tem dúvidas sobre o seu pertencimento político, sobre a mulher a quem amar, a musa do ditador Diaz, Silvia, interpretada por Danuza Leão, que foi sua amante e é uma bela mulher alienada, ou a discreta e dedicada Sarah. E está confuso sobre a luta de classes. Há rumores de que o personagem teria sido inspirado em Carlos Marighela, mas Paulo parece mais angustiado e triste do que as memórias que se contam sobre o líder da ALN.

Eldorado, país interior Atlântico (nossa origem colonial marcada no nome), não poderia, para Paulo, ser governado por um populista fraco. “Se não tem as qualidades, não deveria ir à Praça”, diz sobre Felipe Vieira quando percebe suas fragilidades ideológicas. A referência ao poema de Gregório de Matos ganha mais importância se pensarmos na frase que é dita por Vieira a Paulo logo no início do filme: “Um país precisa de poetas”. Inevitável pensar em Dilma Roussef, que tomou posse citando Guimarães Rosa e foi retirada do poder fazendo uma alusão a Maiakovski.

Ao rever Terra em transe, nos deparamos com duas vocações brasileiras: as autoridades que se legitimam em discursos moralistas mesmo quando a sua hipocrisia está escancarada, e o caráter instável das nossas aspirações de igualdade social. Nesse momento, há muitas batalhas acontecendo, mas apenas Glauber Rocha é vitorioso. O filme que fez sobre o seu tempo é eterno.

 

Cecília Matos é historiadora e professora de História.

 

Saiba mais sobre: Terra em transe

Veja o trailer do filme (Clique aqui)